Citando minha amiga Nati Bonfim:
Estou escrevendo para tornar público o caso da minha amiga, Maria Cleneilda, de 26 anos. Ela tem anorexia nervosa e está em tratamento no Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo). De outubro de 2010 a junho de 2011 esteve internada na ECAL (Enfermaria de Distúrbios do Comportamento Alimentar), onde, no entanto, apesar dos esforços dela e da equipe, não conseguiu ganhar peso, tendo alta após 8 meses de internação. Há duas semanas começou também a frequentar o CAPS Itapeva diariamente, não deixando, porém, o tratamento semanal no Ambulim desde sua alta em junho deste ano. Desde então também não conseguiu manter o peso e se queixou, inclusive, da falta de suporte para isso, já que medidas como introdução de suplemento alimentar poderiam ter sido tentadas como paliativos e alternativas antes de ser pensada uma medida mais drástica como outra internação psiquiátrica.
A Cleneilda mora em São Paulo com os irmãos e sobrinhos. Seu pai vive no norte do país e sua mãe é falecida. Enfrentou graves depressões desde os seus 16 anos, antes de ter os sintomas alimentares, que após o falecimento da mãe se agravaram. Veio do norte para São Paulo realizar tratamento especializado e hoje se encontra no PS (há mais de 24h) do Hospital das Clínicas, numa maca no corredor, logicamente. Devido ao baixo peso a equipe do Ambulim vê necessidade de que seja internada novamente, mas, como o último tratamento de 8 meses na ECAL não surtiu efeito, há duas semanas procuram vaga em outro hospital psiquiátrico público. Este é o motivo de estar no PS, segundo eles, para não correr risco de vida até que encontrem uma vaga sabe-se lá onde e quando!!! Seus exames não deram nada grave, mas seu peso é crítico. Aguardar em casa não seria mais coerente? Sim! Até mesmo porque ela não está recusando alimentação… Não estava! Agora, no PS, se alimentar de “lavagem” tem sido mais que complicado.
Há três pontos improtantes aí:
1. A ECAL, enquanto equipe especializada em distúrbrios alimentares, é um dos únicos lugares em São Paulo capaz de tratar em regime de internação fechada pessoas com distúrbios alimentares graves;
2. Sabe-se que dificilmente em um hospital psiquiátrico qualquer um paciente com transtorno alimentar será monitorado na sua alimentação, que seria o básico para um tratamento efetivo;
3. O pronto-socorro não é um local adequado para NINGUÉM passar mais de 24h. É um ambiente insalubre e conturbado. Uma pessoa fragilizada emocional e fisicamente pode ter ainda mais sua saúde agravada sob estas condições precárias.
Em virtude do insucesso do tratamento na ECAL, é plausível que a equipe tome atitudes no sentido de pensar em alternativas de tratamento e internação. O que ocorre, no entando, é um descaso com a paciente quando é dada apenas uma ordem sem esclarecimentos. Ela e a família tem todo o direito de saber para onde pretendem “mandá-la”, é o mínimo. Jogar uma pessoa num PS e dizer simplesmente para que aguarde, tirando-lhe toda a potência para ao menos pensar sobre sua vida daí para frente – já que, a priori, não lhe é dada opção de escolha – é tolher o indivíduo em toda a sua expressão, tirando dele, muitas vezes, incluvie o que resta da sua vontade de viver.
Tenho usado muito mais do que gostaria a metáfora “engolir sapo” quando me refiro ao tratamento de pessoas com transtornos alimentares. É o caso novamente… E é por isso que estou em contato constante com ela, como amiga, para dar voz ao seu desespero, a partir da minha indignação que pretende ser muito mais que um grito. Queremos uma solução para isso!!! E passabolaterapia não é a solução!!!
Fonte: http://rissca.net/blog/2011/08/31/nota-de-repudio-a-favor-de-uma-conduta-humana-e-responsavel-por-parte-do-ambulim/

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